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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um contador de histórias

Pergunta-me porque escrevo. Não sei bem, é uma voz interna que fica me dizendo que a hora é agora. Chega de passar todos esses anos, de pensar nas coisas e nem chegar a fazer. Deve ser a voz de meus pais, avós, as pessoas que partilharam a vida comigo, que de alguma forma me tocaram com sua alegria, amor, ciúmes, angústia, ira. Tudo conta. Tudo é uma pequena parte da soma que é a nossa vida. Somos também um pedaço da vida de tantos. Procuro sempre ser parte da alegria, do amor. Com certeza nem sempre acertei. Difícil ser perfeito ou quase.
Temos que viver com o todo que somos. Alegrarmo-nos com o que é bom, sentir o que não é. Usar os erros para aprender ser um pouco melhor na próxima vez que está logo ali adiante para nos testar.
Não adianta olhar pra trás, é seguir em frente e fazer o melhor do que em nossos caminhos se apresenta.
Muito tempo perdi, só pensando no que seria, porque não foi. Pensava muito, escrevia nada. As palavras fugiam da angústia e irritação que reinavam.
Acho que o tempo nos ensina ser paciente. A calma que hoje domina meus pensamentos deixa que as palavras se escrevam, que me conduzam, que me tornem mais um contador de histórias. Só que estas são todas minhas. Não me importo em dividi-las.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mal traçadas linhas ...


Venho, por estas mal traçadas linhas... E começava mais uma carta para o amigo distante, em distância e tempo. Já se iam muitos anos, décadas que já não se encontrava com o amigo de tempos jovens e audazes. Era uma dupla e tanto, nas longas noites, de bar em bar, nos clubes e cabarés. Eram a alegria das mulheres, onde quer que chegassem. Conversas, brincadeiras, amores furtivos, beliscos nos pecados da vida, sem fazer mal a qualquer um.
Quantas noites embriagadas pela bebida e pelo amor rasgaram madrugadas afora e terminaram sentados à fonte da praça da cidade em que gastaram com tanta alegria suas juventudes.
O tempo passou e a vidas os distanciou. Formaram famílias que cresceram e procriaram, filhos, netos e bisnetos. Mesmo distantes sempre se corresponderam, mantiveram em dia as notícias das aventuras novas, agora vividas pelos que de seus frutos vieram.
Todo o dia sentava-se à velha mesa de pedra do terraço, cercado de plantas e a vista do mar que insistia em bater, incansável, nos rochedos abaixo.
Há tempo que escreve e nenhuma resposta vem. Fiel a seu designo, continuava a escrever. “Vai ver está ocupado, viajando pra lados distantes daqui, senão viria visitar”. Ainda assim, escrevia. “Quando voltar, responderá a todas de uma vez”.
E o tempo passava.
Um dia lhe chega uma carta, remetida pelo amigo. Não reconheceu as letras do envelope. Abriu. A escrita era do velho amigo. Seu coração sorriu. Começou avidamente a ler o que tanto esperava. Queria saber das novas aventuras que o amigo, que já há algum tempo não escrevia, tinha arranjado para si.
A carta dizia: “Velho amigo de bons tempos. Quando estiveres lendo esta, já terei partido para a mais longa aventura de minha vida. Levo comigo a lembrança de nossa juventude, de tudo que vivemos juntos. Estou muito adoentado e não queria que isso fosse tirar o brilho de nossas memórias. Escrevi esta na última de minhas forças. Vou guardá-la onde só acharão depois que aqui não estiver. Deixo instruções para que te enviem. Este é meu abraço, minha despedida e agradecimento por tão pura amizade, tal qual não tive igual. Meu amigo fiel levo comigo, dentro do meu coração a sua amizade, o amor de um irmão”.
Junto, vinha um cartão, escrito na mesma letra do envelope. Nele estava escrito: ”Caro senhor, cresci ouvindo histórias de suas aventuras com meu bisavô. Elas iluminaram minha infância e juventude, fizeram de mim o que sou hoje. Por ouvir as histórias por vocês vividas, me inspirei e me tornei escritor. Perpetuo com minhas palavras as alegrias divididas pelos dois. Sei que a diferença de idade é muita, mas gostaria de continuar onde meu bisavô parou. Sinto em meu coração a força da sua amizade, cultivada pela empolgação e carinho com que ele as citava. Se a distância das idades não for maior que a que nos separa, terei orgulho e prazer em receber suas mal traçadas linhas”.